02/11/2023 - 13:10 - 14:40 CO29.2 - Não estamos todos no mesmo barco: diferentes pandemias, riscos e expressões das desigualdades em saúde |
46164 - A PANDEMIA NA FAVELA: PERCEPÇÃO DE HOMENS JOVENS DO COMPLEXO DA MARÉ-RJ SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19 LUCAS TRAMONTANO - IFF-FIOCRUZ, MARCOS NASCIMENTO - IFF-FIOCRUZ
Apresentação/Introdução A pandemia do novo coronavírus configura a maior emergência sanitária dessa geração. Analisando as diferenças de gênero, se identifica que homens apresentam piores resultados em termos de morbidades e mortalidade em função da COVID-19, associados a uma noção de invulnerabilidade e à resistência a práticas de prevenção características da masculinidade hegemônica. Observamos um “rejuvenescimento da pandemia”, com os jovens tendo de se colocar em risco para proteger os mais velhos. As comunidades cariocas também foram mais vulneráveis à COVID-19, em função da densidade populacional, do modelo de trabalho e da crônica ausência do Estado. Por sua vez, a população foi afetada por posturas negacionistas acerca da doença, do tratamento e do próprio vírus, nas quais identificou-se uma articulação com a masculinidade hegemônica, com consequências dramáticas nos casos de COVID-19.
Assim, é estratégico ouvir os jovens sobre os impactos da pandemia e as fontes de informação consultadas. Com isso, visamos colaborar com perspectivas contemporâneas de comunicação em saúde, assim como refletir acerca de questões históricas ligadas à Saúde do Homem.
Objetivos Refletir sobre a experiência da pandemia de COVID-19 de homens jovens (18 a 29 anos) moradores do Complexo da Maré no Rio de Janeiro e o impacto do negacionismo científico em suas práticas de prevenção da saúde.
Metodologia Este trabalho é um recorte de uma pesquisa de pós-doutorado realizada entre set/22 e 02/23. Tratou-se de uma pesquisa qualitativa e exploratória, através de 10 entrevistas semiestruturadas com homens jovens (entre 18 e 29 anos) moradores do Complexo da Maré. Os critérios de inclusão foram a autoidentificação como homem e ser residente de comunidade. As categorias de análise foram: (I) perfil sociodemográfico; (II) sociabilidade e internet; (III) saúde e medicamentos; (IV) saúde e sociedade; e (V) COVID-19. Aqui, focaremos especificamente a COVID-19.
Resultados e discussão Seis jovens tiveram COVID-19, com sintomas leves e sem internações. Houve variações na percepção do contágio na vizinhança, porém, os jovens argumentam que as pessoas mais atingidas seriam os mais velhos, ao passo que eles estariam mais protegidos.
Entre os que trabalhavam, houve forte impacto do lockdown, gerando problemas financeiros que afetaram a segurança alimentar, a saúde mental e o consumo de álcool e drogas. O ensino remoto foi visto como muito negativo e também afetou a saúde mental. O afastamento de amigos foi o principal motivo para interromper o isolamento social, ainda que as redes sociais tenham atenuado a distância.
Foi frequente uma sensação de ansiedade ou pânico frente ao contágio e à possibilidade de morte. Contudo, um entrevistado argumentou que teria “anticorpos” por “pular no valão”, reproduzindo a fala do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ressaltamos o paralelo com uma ideia de invulnerabilidade da masculinidade hegemônica.
Todos fizeram algum isolamento (4 meses em média) e todos usavam máscaras, porém somente em lugares fechados e quando obrigatório. Vale destacar que o cotidiano desses jovens é muito atrelado ao território, com pouca circulação urbana fora da favela.
Os relatos foram muito críticos às atitudes da população, consideradas negligentes e egoístas, principalmente pela não interrupção dos espaços de lazer na favela. Outra crítica frequente envolvia a ideia de ser “só uma gripezinha. A maioria sequer sabia o que era cloroquina ou o suposto “kit-COVID”, o que demonstra uma baixa exposição e adesão a discursos negacionistas. Um dado que confirma essa análise é a vacinação: todos tomaram ao menos duas doses, sem grandes hesitações. Os relatos confirmam o impacto positivo de uma campanha de vacinação coletiva, com destaque para a atuação da Fiocruz no território.
Todos consideraram que tinham informações suficientes para tomar decisões. Ainda que consultem a internet, criticam a desinformação das redes. A televisão segue como uma fonte confiável, assim como instituições governamentais, universidades públicas, ONGs locais e profissionais da saúde.
Conclusões/Considerações finais As práticas de prevenção adotadas não foram as mais rígidas, mas enfatizamos que a realidade socioeconômica da favela não permitia um isolamento maior, e foram frequentes os relatos de que a vida continuou quase inalterada. Por outro lado, os jovens criticaram intensamente tais atitudes, e o baixo contágio, a vacinação e a não adesão ao suposto “kit-COVID” são exemplos práticos desse discurso.
A sociabilidade focada na comunidade foi um fator protetivo e a maioria não corroborou discursos negacionistas, o que demonstra uma resistência ao negacionismo. O Governo, ONGs e profissionais de saúde são vistos como referências.
Mais do que relatar a competência informacional desses jovens acerca da pandemia, é preciso aproveitar as redes sociais para ampliar o diálogo com esse público, o que se torna um imperativo para a educação em saúde e deve ser uma prioridade nas ações em saúde futuras.
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