Comunicação Oral Curta

02/11/2023 - 08:30 - 10:00
COC16.3 - Atenção à Saúde Sexual e Reprodutiva: desigualdades e estigma

46347 - IMPACTOS DAS MATERNIDADES NA SAÚDE MENTAL: INTERFACES DE GÊNERO, COMUNICAÇÃO E SAÚDE
IRENE ROCHA KALIL - INSTITUTO DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM SAÚDE (ICICT/FIOCRUZ)


Apresentação/Introdução
As interfaces entre gênero, comunicação e saúde são muitas e se expandem a cada dia. Não apenas pela expressão de múltiplas identidades de gênero, mas também por novos olhares sobre velhas questões, sendo uma delas a própria maternidade, que não se esgota nas abordagens já trabalhadas até aqui. Através do que Zanello (2018) nomeou de ‘dispositivo materno’, sumariamente definido como “naturalização da capacidade de cuidar (em geral) nas mulheres, decorrente justamente dessa mescla (razoavelmente recente, com o advento do capitalismo) entre a procriação e a maternagem” (p. 149), as mulheres experimentam uma sobrecarga física e mental com as atividades do cuidado que ainda não se encontra plenamente investigada e, muito menos, sanada socialmente.
Esta pesquisa aborda as relações entre a condição materna e a saúde mental, compreendendo os desafios do cuidado materno no contexto contemporâneo. Pensar a saúde mental materna não deve se resumir ao período da gestação e puerpério, afinal o cuidado se prolonga por toda a vida. E também não pode ser pensada em relação a uma suposta mulher universal, uma vez que as mulheres não se encontram todas em uma mesma situação, diferindo de acordo com seus pertencimentos sociais (idade, gênero, raça, classe), diferenças que “se convertem em desigualdades, que, por sua vez, se transformam em sofrimento, adoecimento e mortes” (BRANDÃO E ALZUGUIR, 2022, p. 69). Nesse sentido, ancora-se numa perspectiva interseccional, buscando “capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação” (CRENSHAW, 2002, p. 177).


Objetivos
Refletir sobre o fenômeno da saúde mental materna a partir do diálogo com a literatura científica existente no Brasil, aprofundando os conhecimentos sobre a construção social da maternidade e as implicações dos discursos sobre maternidades contemporâneas na saúde mental de mães de filhos/as/es de todas as idades.



Metodologia
O trabalho dialoga com a produção científica existente acerca da temática das maternidades em sua relação com a saúde mental das mulheres. Por meio de revisão da literatura científica brasileira que relaciona maternidade e saúde mental, busca identificar os principais temas e categorias abordados, debatendo os achados à luz do arcabouço teórico dos estudos de gênero e interseccionalidade.



Resultados e discussão
Em busca bibliográfica preliminar, realizada no Scielo em 22/03/2023, utilizando os descritores (maternidade) AND (saúde mental), foram encontrados 24 resultados. Destes, após triagem por leitura de títulos e resumos, foram excluídos os que não estabeleciam relação entre o ser mãe e o adoecimento psíquico e os que não retratavam a realidade brasileira, restando 4 artigos, que foram lidos em sua integralidade.
Todos os artigos do escopo situam-se no campo da psicologia, sendo um deles na interface psicologia/enfermagem. Embora produzidos no âmbito disciplinar da psicologia, eles problematizam o cuidado segmentado, enfatizando a indissociabilidade entre saúde física e mental na direção da integralidade.
Os temas abordados foram: sofrimento psíquico na gestação e primeiros anos de vida do bebê; impactos da transição para a maternidade durante a graduação universitária; fenômeno da maternidade para mulheres portadoras de transtornos mentais; e experiências de parentalidade como fatores geradores de sofrimento mental em mulheres. Mesmo olhando as relações entre saúde mental e maternidade de diferentes perspectivas e em diferentes momentos da relação mãe/filho/a/e, os artigos abordam os sofrimentos psíquicos que acompanham a experiência da maternidade ou como a experiência da maternidade atua em mulheres com sofrimento psíquico preexistente, buscando uma melhor compreensão dos desafios específicos que a condição de mãe, neste contexto sócio-histórico, impõe às mulheres.


Conclusões/Considerações finais
Tendo em vista que os desafios e ambivalências com relação à maternidade são inconfessáveis e pouco acolhidos pelos discursos e serviços em saúde, o que “leva muitas mulheres ao sofrimento, ao fazê-las sentirem-se como antinaturais’” (ZANELLO, 2018, P. 171), faz-se imprescindível problematizar os impactos, na saúde mental materna, dos discursos e práticas que assumem relevância na modelagem social do feminino.

Referências bibliográficas

BRANDÃO, Elaine Reis; ALZUGUIR, Fernanda de Carvalho Vecchi. Gênero e saúde: uma articulação necessária. Coleção Temas em Saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2022.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, ano 10, p. 171-188, 2002.

ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.